Histórias Cruzadas


Tendo feito parte durante muito tempo do grupo de estados mais ricos dos EUA, o Mississipi já foi um cenário onde os interesses políticos e o pensamento separatista da população, que em determinado período apoiava abertamente o uso do trabalho escravo, promoveram a secessão da localidade que se juntou a outras e constituíram uma nova federação tendo sido reintegrada anos mais tarde. Até a metade dos anos cinquenta o segregacionismo no estado era gritante em escolas, comércios e meios de transporte e delimitava até onde as chamadas pessoas de cor poderiam ir e de quais direitos usufruir. Com a interferência da Suprema Corte a dessegregacão foi autorizada, mas nem por isso a convivência entre as raças foi tratada com normalidade, muito pelo contrário, centenas de negros perderam suas vidas em conflitos violentos.

Baseado no best-seller escrito pela autora Kathryn Stockett o longa Histórias Cruzadas narra os dramas e a postura frente a eles de empregadas domésticas negras nos anos sessenta em Jackson, capital do Mississipi nas relações interpessoais com seus empregadores brancos. É justamente esta premissa que se torna o centro de interesse de Eugenia "Skeeter" Phelan (Emma Stone), uma jovem jornalista que é apresentada como um contraponto à maioria de suas amigas, por ter uma visão bem diferenciada dos relacionamentos inter-raciais e assumir uma postura independente diante das outras treinadas para serem "caçadoras" de maridos. Criada com a ajuda de Constantine (Cicely Tyson) , uma velha empregada da família, Skeeter após terminar os estudos retorna para sua cidade, onde consegue trabalho no jornal local tendo como primeira tarefa responder as cartas dos leitores de uma famosa colunista, mas seu estilo impetuoso a desvia para algo maior produzir um artigo enfatizando as impressões das criadas dos abastados membros da classe média sobre seus patrões, no auge da luta pelos direitos civis. Sua principal aliada é Aibileen Clark (Viola Davis) governanta de uma das conhecidas de Skeeter que se divide entre os afazeres domésticos e os cuidados da única filha da dona da casa, sumariamente desprezada pela mãe. A partir do depoimento de Clark, outras mulheres se sentem estimuladas a contribuir entre elas Minny Jackson (Octavia Spencer) durante anos a serviço de Mrs. Walters (Sissy Spacey) e de sua opressora filha Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), mas dispensada depois que utilizou o banheiro principal da casa. Entretanto, a vida de Jackson acaba tomando outro rumo depois que começa a trabalhar na residência de Célia Foote (Jessica Chastain) uma rica emergente rivalizada por Holbrook e sua liga.


Dirigido e roteirizado pelo desconhecido Tate Taylor, amigo pessoal da autora Kathryn Stockett Histórias Cruzadas é uma produção, digamos, controversa principalmente quanto ao esquematizado formato onde suas personagens foram inseridas e identificadas. Protagonistas e antagonistas têm posições explicitamente marcadas. Sem qualquer meio termo os vilões (a maioria brancos) são sempre péssimos e os heróis cândidos, tal qual a dramaturgia mexicana. A insistência em querer apresentar esta linha divisória para o espectador acaba por subestimá-lo como se, por exemplo, a ação de uma figura que obriga sua doméstica a enfrentar uma tempestade para ir ao banheiro destinado a empregados já não fosse um evento que identificasse o caráter da primeira. Na tentativa de deixá-la ainda mais vilanesca (outra vez remetendo aos folhetins lacrimejantes) é necessário lhe atribuir à responsabilidade de ter colocado a mãe no asilo, mandado alguém para a cadeia e até destinado a ela uma brotoeja como bônus. A falta de tato do diretor também abriu brechas que fizeram com que a produção fosse taxada como hipócrita, por condenar o racismo, mas veladamente o defender creditando sempre aos brancos as principais bem aventuranças ocorridas na vida de suas protagonistas negras, dedicando a apenas uma destas a atribuição de ter contribuído diretamente com a patroa consequentemente encarado aqui como fator compensatório.

Se os elementos históricos foram muito bem retratados, através de registros televisionados ou radiofonados com pregações de líderes religiosos da época sobre os conflitos civis em voga, bem como o racismo imperante em situações cotidianas como os negros sendo obrigados a descer de um ônibus devido a uma eventualidade a execução ficou comprometida devido à inexperiência de Taylor, que optou por seguir um caminho menos arriscado, porém previsível.Em contrapartida, tudo estaria perdido não fosse o magnífico desempenho de grande parte do elenco, a começar pela incrível Viola Davis, que mais uma vez rouba a cena através de gestos, olhares resignados e respirações ofegantes. Difícil não se emocionar quando Aibileen fala sobre o filho assassinado ou quando confronta Hilly talvez o momento mais esperado do filme. Octavia Spencer e Jéssica Chastain trazem o alívio cômico, garantindo certa leveza para a história, muito embora suas tramas individuais igualmente contenham dramaticidade. Da mesma forma merece destaque o trabalho da figurinista Sharen Davis, que faz algo tão bom ou até mesmo superior ao que fez em Dreamgirls. Interessante como ela diferencia a personagem de Emma Stone das demais. Enquanto Hilly, Elizabeth e Jolene utilizam estilizados vestidos floridos, combinando com os cabelos cheios de laquê, Skeeter tem um visual mais sóbrio refletindo que a moda é a última de suas preocupações.

Uma das principais apostas para o Oscar 2012, Histórias Cruzadas é uma produção de altos e baixos, pessimamente conduzido mas belissimamente interpretado. A matéria-prima é muito boa, mas o produto final soou maniqueísta e o acabamento prejudicado.

4 Response to "Histórias Cruzadas"

  1. Kamila says:

    Estou ansiosíssima para conferir este filme. Até comprei o livro no qual se baseia. :)

    Gostei do texto. Ficou tão bem detalhado, mas não estou acostumado a ler textos críticos sobre cinema. Isso me perturbou um pouco. Não conheço o livro em que o filme foi baseado, mas parece interessante. Pretendo procura-lo para folhear, mas o filme não me encantou muito. Verei o trailer depois.

    Eu ainda não conferi e preciso dizer que não tenho muita pressa viu, apesar de ser um dos filmes que estão por ai na temporada de premiação!

    Fiquei interessado nesse filme, Flávio. O artigo ficou excelente. Desde "Doubt", venho me interessando por filmes que tem a Viola Davis no elenco. Ela deu um show na sua principal cena do filme.

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