Sou uma escrava para você


Relatos afirmam que atualmente na Inglaterra cerca de 5000 refugiados africanos podem estar sendo submetidos a trabalho escravo e condições de vida deploráveis. Dado esse aparece no final da projeção de Sou uma escrava para você (I am Slave), longa de 2010 baseado na história real da ativista de direitos humanos e escritora sudanesa Mende Nazer.

Vivendo com os pais nas montanhas Nuba do Sudão, a pequena Malia, de doze anos -- leva uma vida comum de acordo com a cultura e os costumes de seu povo. Seu pai Bah (Isaach de Bankolé, formidável) é um exímio lutador, relativamente conhecido no país, já a mãe Hana (Nyokabi Gethaiga) divide-se entre os afazeres cotidianos e os cuidados do marido e da filha. Estando em conflito a quase cinquenta anos, em constante guerra civil entre muçulmanos e não-muçulmanos -- o Sudão tem sido cenário de investidas de milícias árabes provocando genocídios por onde passam, bem como raptando crianças a fim de vendê-las como escravas. Tal destino acaba indo de encontro a Malia, que arrancada dos pais vai parar no lar de uma família de classe média alta -- forçada a servir os donos nos serviços domésticos, enfrentando abusos físicos principalmente da patroa (Hiam Abbass), que a todo o momento trata de lembrar a garota de que fora dali ela não conseguiria sobreviver. Enquanto isso, Bah busca incessantemente pela primogênita, indo de região a região atrás de algum vestígio. Seis anos se passam e a jovem, agora com 18 anos e interpretada pela desconhecida Wunmi Mosaku, está em Londres, ainda como empregada e babá dos filhos de outro casal, novamente antagonizada pela dona da casa, que dubiamente se alterna entre a figura de protetora e a de opressora.


Sexta produção sob o comando do britânico Gabriel Range -- que antes dirigiu Death of a President sobre o ficcional assassinato de George W. Bush, Sou uma escrava para você assume abertamente seu caráter político ao enfocar a situação de estrangeiros de outros continentes na parte ocidental do mundo. Durante anos sob domínio do Reino Unido, a nação sudanesa só conseguiu independência total em 1956 -- e bem como outros países africanos ainda tem o tráfico de humanos, principalmente para regiões nobres da Inglaterra, como uma das maiores manchas. São homens e mulheres trancafiados em mansões, tendo suas famílias ameaçadas como forma de mantê-los presos a seus donos -- remetendo aos períodos de colonização e exploração dos mais abastados sobre os considerados miseráveis. Este teor utilizado no longa, que conta com o roteiro de Jeremy Brock -- responsável pelos textos de Mrs. Brow e O Ultimo Rei da Escócia, foge do ditadismo ao tomar uma postura quase documental, sobre as agruras sociais que cercam nações consideradas de terceiro mundo frente as grandes potências. Este argumento foi o mesmo utilizado pelo senegalês Osmand Semené em sua possivelmente mais famosa obra -- A negra de... (1956). Na produção, uma mulher negra nascida em Dakar se muda para a França para trabalhar e de certo modo se ocidentalizar. Seus sonhos acabam sendo desfeitos quando é aprisionada -- se tornando uma refém da ama, que lhe faz diversas restrições. A propósito, o relacionamento de Diuanna com sua patroa assemelha-se com a relação de Malia com suas duas donas. A primeira uma elitista sudanesa, que prefere acreditar no irmão que tenta abusar sexualmente da protagonista e a proíbe de tocar seus filhos (numa gritante demonstração de racismo), seguida da dona de casa inglesa -- não tão cruel como a antecessora, mas ferozmente manipuladora. Se Diuanna teve a possibilidade de escolher (mesmo que impulsionada por uma ilusão) - à Malia não foi dada esta chance. Ao optar por uma trama exposta como denúncia - exibindo cruamente as várias esferas de um sistema exploratório -- Range conseguiu se desviar de outras produções do gênero que apostaram apenas em um único ponto, e mesmo assim sem desenvolvê-lo completamente -- o recente Flor do Deserto é um desses casos. O manuseio da câmera dando diversos closes no estupefato rosto da protagonista reforça com propriedade o choque cultural sentido por alguém forçosamente retirado de sua terra natal e jogado numa jaula de leões que é uma grande metrópole. De igual modo, a cena onde a personagem tenta fugir da casa onde trabalha em Londres, sendo surpreendida pela distante aparição desfocada da patroa que a censura -- contrasta historicamente com o ocorrido há mais de duzentos anos na Inglaterra, quando o tráfico de escravos foi proibido. Com mais de dois séculos de história ainda é explícita a relação de dominante com dominado na Europa.

Apesar da competente execução, tudo poderia se perder, caindo no melodrama - não fosse pelo incrível trabalho da britânica de origem nigeriana Wunmi Mosaku, que se entrega ao papel de maneira impressionante. Mosaku constrói Malia de modo sensível e contido, através de seus olhares já é possível sentir sua angustia -- fruto do exasperante martírio.

Produzido pelo inglês Channel 4 - Sou uma escrava pra você é uma produção com requinte que merece ser descoberta, é um grito dos excluídos que clamam por liberdade em um mundo que avança tecnologicamente, mas ainda está preso nas arcaicas conveniências de um passado.

3 Response to "Sou uma escrava para você"

  1. Negava says:

    Adorei o blog, muito bom mesmo. seguindo, segue o meu se puder
    http://luamanchadadesangue.blogspot.com/

    Kamila says:

    Ainda não tinha ouvido falar desse filme antes. Teu texto me mostra que a obra é interessante. Anotei a dica.

    Gallogher says:

    Acabei de assistir ao filme, que me deixou perplexo! Uma história muito triste que valeu ser contada, destaque para a excelente protagonista! Tragicamente, a escravidão ainda persiste, através de pessoas sem nenhum escrúpulo... Por favor, denunciem!

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