A Chave de Sarah

Aliada da Inglaterra, contra a Alemanha, na Segunda Guerra Mundial, a França foi um dos principais cenários de investidas do movimento nazista de Hitler, e tendo a capital Paris ocupada quase em sua totalidade no início da década de quarenta, encontrou-se cercada de militares alemães que capturaram artistas, intelectuais e civis — judeus e não franceses de variadas faixas etárias, incluindo mulheres e crianças. O exército e o Serviço Secreto Francês, atuando como cúmplices em muitas das ações nazistas, brutalmente arrancaram famílias inteiras de suas casas, determinando seus destinos em campos de detenção, separando maridos, esposas e filhos. O impacto desses eventos ficou na memória de muitos sobreviventes, que ainda hoje, décadas depois do término do conflito, lidam com os traumas causados pela brutalidade do regime alemão.

Dirigido e roteirizado pelo cineasta francês Gilles Paquet-Brenner, o drama A Chave de Sarah trata dos fantasmas pessoais que durante anos acompanharam uma menina judia, estrangulada pela culpa por um ato que cometeu no passado, a fim de proteger o irmão caçula. Tais fatos se tornaram peça para uma matéria jornalística de uma importante publicação local em 2009, depois que o governo deu ganho de causa a uma ação movida pela menina deportada.

Veterana e renomada jornalista, a americana Julia Jarmond (Kristin Scott Thomas) numa reunião de pauta decide investigar a vida da garota judia , que nos anos quarenta foi levada junto com a família para um velódromo (uma espécie de estádio onde eram mantidos os prisioneiros antes de serem enviados para os campos). Antes disso, distraindo a atenção da polícia, a jovem Sarah Starzynski consegue esconder o irmão menor em um armário dentro de uma parede falsa e guarda a chave como um talismã, pois acredita que estará de volta a tempo de soltá-lo do aposento. A partir daí, ela e seus pais passam a fazer companhia a milhares de pessoas, em um ambiente com condições extremamente precárias (o que Paquet-Brenner em determinado momento competentemente ilustra ao utilizar a câmera em panorâmica horizontal e em lento movimento). Enviados para o norte do país num inverno cruciante, a família Starzynsk é dividida e a primogênita encaminhada para um cercado apenas de crianças. Ajudada por um oficial, consegue escapar com uma amiga e encontra refugio no lar de um casal, que a principio as rejeita, mas as acolhe quando percebe que uma das garotas está doente. Tempos depois — Sarah, Jules (o ótimo Niels Arestrup de Cavalo de Guerra ) e Geneviève Dufare (Dominique Frot) retornam para o prédio onde a personagem morava com os pais, para conseguirem resgatar o irmão preso no armário. O apartamento naquela fase já estava ocupado, sendo que o filho dos atuais donos, Édouard, então criança — se tornaria mais de cinquenta anos depois o sogro da personagem de Scott Thomas, e de quem esta herdaria com o marido o imóvel onde aquele morou com a família, logo depois dos Starzynskis serem deportados. O paradeiro de Sarah acaba se transformando na obsessão de Julia, que nesta altura também tem que lidar com as intempéries de uma gravidez não desejada pelo cônjuge, que a sugere fazer um aborto.



Alternando passado e presente, promovendo uma quase perfeita conexão de tramas, a produção francesa A Chave de Sarah se apóia principalmente no talento da inglesa Kristin Scott Thomas que, poliglota, utiliza o inglês materno (com sotaque americano) e fala fluentemente o francês. Minuciosa, a atriz consegue fazer a diferença, apesar dos evidentes desníveis do texto. Quando gira em torno da personagem misteriosa protagonista da matéria de Julia, o roteiro atinge inúmeros picos, que ainda salientam o excelente trabalho de reconstituição de época, recuperando o clima sombrio que rodeava milhares de civis, que sem reais perspectivas, tinham a convicção de que estavam indo em direção à iminente morte, nas terríveis condições em que estavam. Em contrapartida, no momento que a trama se desloca para os dias atuais, se concentrando nos dramas vividos por Julia, como sua gravidez tardia, os conflitos matrimoniais, a sogra enferma, há uma perda gradual do brilho da narrativa, retomado apenas quando a personagem novamente se fixa na busca por Sarah.

A segura direção de Gilles Paquet-Brenner de certo modo também compensa esta desarmonia de histórias, oferecendo algumas cenas antológicas, como quando nos deparamos com uma personagem fingindo estar ferida para escapar do velódromo, e após conseguir, só é possível ouvir seus solitários passos rumo à saída, em detrimento aos muitos que não terão a mesma sorte. Outro ponto alto do filme se dá pela contundente critica à falta de conhecimento e ao desinteresse de uma juventude pelo passado, captado pelos jovens com certa superficialidade.

Longe de ser brilhante, mas muito sincera, a produção A Chave de Sarah funciona como um preciso retrato de uma época histórica, que levou ao óbito milhares de nativos franceses e de outras origens, derrubados pela violentamente impositora filosofia nazista, que perseguiu seus alvos pelos quatros cantos de Paris. Cerca de 13.150 pessoas foram colocadas nos trens em direção a Auschwitz, e grande parte nunca mais foi vista.

5 Response to "A Chave de Sarah"

  1. Só leio elogios sobre este filme. A história dele muito me intriga. E tem a Kristin Scott Thomas, uma das mais finas atrizes que possuímos. Quero muito assistir.

    Rafael W. says:

    Irei conferir em breve, Kristin Scott Thomas é uma das atrizes mais completas que já tive o prazer de acompanhar.

    http://cinelupinha.blogspot.com.br/

    Vou conferir esse filme. O seu artigo, muito bem escrito por sinal, conseguiu mostrar a força dessa produção. Kristin Scott Thomas é ótima, transita com muita segurança entre o drama e a comédia.

    Olá, amigo muito bom o seu blog. Quer fazer uma parceria de divulgação com o meu blog? Eu coloco o seu blog na minha lista e você faz o mesmo aqui. www.ianoticia.blogspot.com
    Um abraço

    Flavio, muito obrigado por aceitar a parceria. O seu público vai conhecer o meu trabalho e os meus visitantes vão ter acesso ao seu excelente blog de cinema.
    Eu ainda estou começando, meu blog tem pouco tempo, neste período estou aprendendo como usar o blog da melhor maneira possível a cada dia. Um abraço.

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