Flor do deserto


Durante anos na Somália era comum submeter as crianças do sexo feminino a uma espécie de ritual que as marcava por toda a vida. Ao atingir a idade de três anos , as meninas somalis tinham o clitóris e o grande e pequenos lábios arrancados e em seguida a genitália era costurada. Tal pratica, segundo à visão daquele país africano , era para manter a pureza das meninas, que dessa forma podiam se preservar até o casamento. O procedimento cirúrgico - feito sem anestesia - era desprovido de higiene ou condições cabíveis , o que ocasionava vários óbitos devido a hemorragia.
Flor do Deserto, baseado num best-seller hômonino, é a biografia da modelo Waris Dirie, que fugiu de casa aos 12 anos, quando foi prometida por seus pais a um homem sexagenário , que a queria como uma de suas esposas. Dirie caminhou um deserto inteiro até chegar em Mogadiscio - capital somali - onde sua avó morava. A menina ficou um tempo por lá, até ser despachada para Londres, para trabalhar como empregada na embaixada da Somália na Inglaterra, onde ficou por anos.



Após ser decretada paz em território somali, que esteve em guerra durante anos, todos que viviam fora daquele país foram convocados para retornarem , mas a garota recusou, ficando dessa forma desabrigada -o que a obrigou a viver nas ruas.
Posteriormente, a protagonista conhece Marilyn - uma vendedora de loja , de quem se torna amiga, e que a ajuda a conseguir um emprego numa lanchonete- e é lá que a grande sorte de Waris aparece. Um desses olheiros de uma agência de modelos fica encantado com ela , e a convida para tirar algumas fotos - sendo esse o começo de uma carreira de muito sucesso.


Dirigido pela desconhecida Sherry Horman, Flor do Deserto é um filme que se tivesse sido bem conduzido, poderia ter ido muito longe em sua carreira mundial. A história de Waris Dirie é um material muito rico pra se contar e seu êxito poderia contribuir e muito para que os olhos do mundo se voltassem contra essa prática ritualística aterrorizadora que ainda é usual em alguns países.
Infelizmente, Horman - com clara intenção de agradar ao mercado americano , romanceou por demais a história, adotando a fórmula batida da Cinderela e utilizando recursos que tornaram a narrativa confusa.
As cenas de Waris quando criança na África são as melhores e mais interessantes, em contrapartida quando corta para Londres o filme cai, e volta a subir quando a Somália novamente ganha a tela numa cena final pertubadora.



Sally Hawkis - muito bem como Marilyn - interpreta um tipo parecido com o que fez em Simplesmente Feliz, com alguns tiques e olhares. Timothy Spall faz o agente que descobre Waris na lanchonete. O ator não tem muito o que fazer, pois sua participação é bem pequena e o roteiro não o ajuda muito . O grande acerto de Flor do Deserto é sem dúvida a protagonista, vivida pela etíope Liya Kebede. Kebede , 32 anos, tem um carisma natural e realmente sabe atuar. A atriz tem vários momentos sublimes, em especial na cena em que numa entrevista a uma jornalista, se recusa a investir na história da pobre menina que venceu, preferindo revelar seu passado de dor e sofrimento.


Waris Dirie escreveu vários livros contando um pouco de sua história e o que sofreu na pele. Atualmente é embaixadora da ONU, e luta contra a prática da mutilação genital. Flor do Deserto - o filme - poderia ter sido uma importante ferramenta no combate a esse crime, entretanto, mesmo ficando aquém das expectativas, é bastante válido , merecendo todo o apoio - como disse o crítico Rubens Ewald Filho em sua resenha sobre o filme.



A verdadeira Waris Dirie

0 Response to "Flor do deserto"

Postar um comentário

Powered by Blogger