Darfur - Deserto de Sangue

Há poucos anos, Uwe Boll foi considerado pela crítica americana como o pior diretor da história do cinema contemporâneo. Suas produções, a maioria adaptações de games, frequentemente eram mal recebidas por público e imprensa, pela precariedade e pela falta de tino de seu idealizador na concepção de uma obra cinematográfica. Assim sendo, ao depararmos com Darfur - Deserto de Sangue com toda sua crueza e sinceridade percebe-se que algo pode ter mudado, e que talvez estejamos diante da melhor produção da carreira controversa do cineasta, que desta vez , deixando de lado as ocas tramas que habitualmente também roteiriza, expõe com uma abordagem documental uma das maiores crises humanitárias da história.

Região Oeste do Sudão, Darfur é palco desde 2003 de violentos conflitos armados promovidos pela população árabe contra os não-árabes, a maioria composta por negros. Neste cenário, milícias camufladamente apoiadas pelo governo espalham o terror por onde passam , assassinando, cometendo estupros e sequestrando crianças, numa disputa etnico-cultural gritante e que meio mundo não imagina a dimensão. São esses acontecimentos que motivam um grupo de jornalistas americanos, liderados por Malin Lausberg (Kristanna Loke) e Bob Jones (Billy Zane), a produzirem uma matéria denúncia sobre as atrocidades ocorridas em terras sudanesas, que revela, mesmo que indiretamente, que as Nações Unidas sim assume apenas um papel figurativo em várias desordens com vínculos políticos, mantendo-se na retaguarda quando lhe convém. Apoiados por soldados da União Africana, Malin e sua equipe se adentram em um dos muitos vilarejos de refugiados não-árabes, entrevistando homens e mulheres que ali permanecem acuados, temerosos pela chegada dos Janjawid - milicianos africanos de religião muçulmana e língua árabe.


Filmado com a câmera na mão, focalizando as reações adversas de seu elenco principal para com cada acontecimento, da expectativa para chegar ao vilarejo à consternação por serem incapazes de evitar um eminente genocídio - Boll foi eficiente ao abrir a narrativa pelo desfecho final, através das lamentações de parte da equipe de americanos, entregues ao impacto dos recentes acontecimentos dos quais foram testemunhas. Deste ponto, acompanhamos os eventos ocorridos até ali e em determinado momento os olhares dos personagens acabam sendo os do espectador. Investigam-se os costumes, as tragédias pessoais (é cada vez mais crescente o número de mulheres contaminadas pelo vírus da AIDS depois de estupradas), a alta taxa de mortalidade. Estima-se que mais de 400.000 pessoas tenham perdido a vida nesta guerra travada no país africano movida pelo racismo e a convicta superioridade que alguns acreditam ter. Invadida por um bando de Janjawids a aldeia que serve de cenário para a reportagem de Malin se torna um campo de pura carnificina, não poupando o espectador de nenhum detalhe, mesmo o mais sórdido, reforçado ainda pela tensa trilha-sonora de Jessica de Rooij. O que foi visto em Diamantes de Sangue ou O Jardineiro Fiel, por exemplo, chega a ser um passeio no parque perto do que é exibido aqui. Uwe Boll utiliza este nada agradável clímax com um tom agressivo, o que pode soar apelativo, mas que historicamente é o que de fato acontece em terras darfurianas.

Mesmo não contando com grandes atuações ou um brilhante roteiro, deve-se destacar a ousadia e coragem do diretor alemão em trazer à tela um retrato cruel das muitas tragédias sociais cometidas em diversas nações, e a incapacidade do restante do mundo de se voltar para elas. Apesar de amplamente divulgado pela imprensa, as desavenças em Darfur continuam a resultar na morte de milhares de civis, e inacreditavelmente alguns países como a China, se recusam a classificar o ocorrido no Sudão como genocídio puramente por interesses comerciais.

Difícil dizer se Darfur - Deserto de Sangue é uma produção com calibre suficiente para tirar do limbo um dos cineastas mais perseguidos de Hollywood, entretanto na fronteira limítrofe entre o céu e o inferno, Uwe Boll conseguiu pelo menos alguma redenção.

2 Response to "Darfur - Deserto de Sangue"

  1. Kamila says:

    Nunca assisti a um filme do Uwe Boll, mas sempre me interesso por essas temáticas. Parece ser um longa, no mínimo, interessante.

    Faelzenho says:

    Oi !

    Leio o seu Blog a um bom tempo e gosto muito !
    O meu Blog ganhou Dois Selos então devo repassa-los para outros blogs dos quais eu gosto e admiro !
    O Selo não serve para nada mas é uma forma dos Blogueiros se presentearem!

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